A busca por soluções para tornar as cidades mais sustentáveis e resilientes esteve no centro do Seminário Japão-Brasil sobre Habitação, Edificação e Desenvolvimento Urbano – O Futuro Sustentável das Cidades e da Habitação, realizado em 21 de julho, no Rosewood Hotel, em São Paulo. O evento reuniu autoridades, especialistas e representantes da construção civil para discutir experiências, tecnologias e políticas voltadas aos desafios impostos pelas mudanças climáticas e pelo rápido crescimento das áreas urbanas.
Promovido pela Associação Internacional do Japão para a Indústria de Desenvolvimento Urbano, Edificação e Habitação (JUBH) e coorganizado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o seminário reforçou a importância da cooperação entre Brasil e Japão no desenvolvimento de cidades mais eficientes, sustentáveis e preparadas para os desafios do futuro.
Estiveram presentes na cerimônia de abertura a cônsul geral do Japão em São Paulo, Yoriko Suzuki; o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho da Cidade de São Paulo, Rodrigo Hayashi Goulart; o Chefe de Gabinete e o diretor de Projetos Estratégicos da SP Negócios, respectivamente, Leonardo Ramos e Aurélio Nomura; o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil, Hayato Yanagisawa; o presidente executivo da CBIC, Fernando Guedes e o arquiteto Kengo Kuma.

Durante os debates, especialistas destacaram os principais desafios do Brasil no setor, entre eles a redução do déficit habitacional, o aumento da produtividade da construção civil e a ampliação do uso de tecnologias construtivas ambientalmente sustentáveis. Os participantes defenderam que a inovação e a adoção de novas soluções tecnológicas são fundamentais para ampliar a oferta de moradias de qualidade, reduzir os impactos ambientais e promover o uso mais eficiente dos recursos naturais.
O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho de São Paulo, Rodrigo Goulart, abriu sua apresentação destacando a importância da aproximação entre Brasil e Japão para o desenvolvimento urbano e da construção civil. Descendente de japoneses e ex-bolsista do governo japonês, afirmou que a experiência vivida no Japão foi fundamental para sua formação e destacou o aprendizado proporcionado pela cooperação com o setor industrial japonês.

“Temos aprendido muito com o mercado e o setor industrial japonês, especialmente com o mestre Kengo Kuma, cujos ensinamentos sobre desenvolvimento urbano são inestimáveis. Como mencionei em outra ocasião, uma das coisas que mais me impressionaram em minhas visitas ao Japão foi a harmoniosa coexistência entre o histórico e o moderno”, disse Rodrigo, destacando que “o Seminário é um exemplo claro desse conceito ao vermos um patrimônio histórico revitalizado através de um projeto de retrofit e iniciativa privada, tal como ocorreu no Hotel Okura, onde tive o privilégio de me hospedar”, explicou o secretário, referindo-se ao Rosewood, considerado um dos maiores e mais complexos projetos de requalificação patrimonial do Brasil – o projeto transformou o antigo complexo do Hospital e Maternidade Matarazzo, um conjunto histórico tombado, no atual Rosewood São Paulo, preservando edificações históricas enquanto incorporava novas estruturas contemporâneas.
O presidente-executivo da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Fernando Guedes, destacou a relevância do seminário para fortalecer a cooperação entre os dois países. Segundo ele, a entidade representa cerca de 12 mil empresas em todo o Brasil e atua na promoção do desenvolvimento da construção civil, da habitação e da infraestrutura. Guedes ressaltou que, somente em 2025, o setor movimentou aproximadamente R$ 624 bilhões, gerando cerca de 3 milhões de empregos formais, e afirmou que o intercâmbio com o Japão é essencial para ampliar a produtividade, a inovação e a sustentabilidade das edificações.

Mercado imobiliário – Na palestra de abertura, que teve como tema “Mercado imobiliário residencial no Brasil: estrutura, dinâmica e oportunidades”, o ex-presidente da CBIC, José Carlos Martins, apresentou um panorama do mercado imobiliário residencial brasileiro e do papel da entidade na representação da construção civil. Destacou que a CBIC completará 70 anos de atuação em 2027, reúne 98 associações e sindicatos em todos os estados e representa mais de 170 mil empresas e 3 milhões de trabalhadores. O setor, segundo ele, responde por 3,6% do PIB brasileiro, participa de 44% dos investimentos realizados no país e influencia 98 cadeias produtivas, reforçando a importância da construção civil para o desenvolvimento econômico nacional.
Estruturada em nove comissões técnicas, produz indicadores econômicos e mantém diálogo próximo com governo e organismos internacionais. Entre suas bandeiras estão a Reforma Tributária e o programa Minha Casa, Minha Vida, além de projetos como “Futuro da Minha Cidade”, voltado a melhorar a imagem do setor.
Ele destacou o grande potencial de crescimento do mercado brasileiro e explicou que, apesar dos juros básicos em 14,5%, a inadimplência é baixa: 1,6%. Segundo Martins, o setor de interesse social vive forte demanda de jovens e famílias, porém, enfrenta um gargalo: aumento real do custo da mão de obra, falta de trabalhadores qualificados e queda de produtividade. Como a renda não acompanha o encarecimento, o risco é o imóvel se tornar inacessível. A saída apontada é a industrialização imediata da construção, com uso de novas tecnologias, pré-fabricação e construção em madeira.
Por fim, falou sobre a reforma tributária e concluiu reforçando o potencial do Minha Casa, Minha Vida, a importância de comunidades planejadas e a urgência da troca de tecnologia com países como o Japão para tornar as cidades mais produtivas e sustentáveis.

Kengo Kuma – A palestra magna ficou a cargo do arquiteto Kengo Kuma, que falou sobre “Arquitetura verde e sustentável”. Um dos mais respeitados da arquitetura mundial, Kengo Kuma defendeu cidades que integram natureza, cultura local e qualidade de vida.
Responsável pela supervisão do projeto arquitetônico da Japan House São Paulo, ele falou sobre o uso de madeiras em construções como o novo Estádio Nacional do Japão, localizado em Tóquio e construído para os Jogos Olímpicos de 2020; a estação Takanawa Gateway Station (Tóquio); a estação intermodal Saint-Denis Pleyel, em Paris e o Museu Casa de Hans Christian Andersen, na Dinamarca, entre outros projetos assinados pelo escritório Kengo Kuma & Associates.
Esplanada Liberdade – Como parte da programação, antes de embarcarem para o Japão, membros da delegação da JUBH estiveram no final da tarde do dia 21 no bairro da Liberdade para conhecer o espaço aéreo onde será construída a Esplanada Liberdade, um projeto urbano que transformará a paisagem do tradicional bairro da Liberdade e contribuirá para a revitalização do centro de São Paulo.
Idealizado pelo diretor da SP Negócios, Aurélio Nomura, o empreendimento prevê a construção de uma ampla estrutura sobre a Radial Leste-Oeste, conectando quatro importantes viadutos — Guilherme de Almeida, Mie Ken, Cidade de Osaka e Shuhei Uetsuka — com o objetivo de criar um novo espaço público voltado à cultura, comércio, gastronomia, lazer, turismo e serviços.
(Aldo Shiguti)






