No dia 13 de julho, mesmo com as baixas temperaturas registradas em São Paulo, o Salão Nobre do Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social –, no bairro da Liberdade, recebeu lideranças, amigos e representantes de associações para o lançamento oficial do livro “Aos meus amigos nikkei-brasileiros”. Com prefácio de Masato Ninomiya, a obra reúne as memórias e reflexões de Masayoshi Morimoto, ex-presidente da Sony Brasil, uma das principais referências nas relações entre o Japão e o Brasil nas últimas décadas e, de acordo com Ninomiya, “mentor de jovens líderes da comunidade nipo-brasileira”.
A edição especial, lançada em versão trilíngue (português, japonês e inglês), chega ao público em um momento em que seu autor enfrenta tratamento de saúde no Japão, e transformou o evento em uma noite de homenagens, gratidão e votos de conforto.
A cerimônia foi aberta por Roberto Nishio, presidente do Bunkyo, que agradeceu a todos que tornaram o livro realidade, entre eles o presidente de honra do Bunkyo, Renato Ishikawa. Nishio relembrou os primeiros passos de sua relação com Morimoto, quando integrou a Comissão Jurídica da Câmara de Comércio e Indústria Japonesa no Brasil, à época em que trabalhava no Banco América do Sul.

“Naquele período, o boletim da Câmara era editado integralmente em japonês, o que limitava o acesso daqueles que, como eu, não eram fluentes no idioma. A Comissão contava com advogados de escritórios renomados, a maioria nikkeis, que trabalhavam intensamente mas raramente recebiam reconhecimento”, recordou. Foi durante a presidência de Morimoto na Comissão que o grupo conquistou um espaço próprio no boletim. “Graças a essa abertura, as atividades ganharam visibilidade e nós, advogados, sentimo-nos enfim valorizados.”
O presidente do Bunkyo também contou como surgiu o vínculo afetivo entre Morimoto e a nova geração de líderes da comunidade, especialmente por meio de Ricardo Nishimura, que coordenou o Fórum de Integração Brasil-Japão. “Ricardo esteve no Japão como bolsista do Ministério dos Negócios Estrangeiros e desenvolveu uma relação quase paternal com o Sr. Morimoto: sempre tive a impressão de que ele havia adotado o Ricardo como um filho. Dessa amizade, nasceu uma conexão profunda com os jovens, que ele visitava anualmente para compartilhar ensinamentos”, contou.
Em seguida, Renato Ishikawa, responsável pela edição e publicação da obra, contou os detalhes do processo de criação. “Meu desejo era realizar este lançamento por videoconferência, com ele transmitindo do Japão: oito horas da manhã lá, vinte horas aqui, sincronizando nossos dias. Mas devido ao seu estado de saúde não foi possível”, explicou. Morimoto gravou então dois vídeos: um para ser exibido no evento, e outro para sua filha Sara Morimoto, que mora nos Estados Unidos e foi recebida por Ishikawa durante o processo. “Ao ler seus relatos — que ele chama de ‘rascunhos de memórias’ — percebi que precisavam chegar a mais pessoas: não só ao Brasil, mas ao Japão e a outros países. Com sua permissão, transformamos os textos em um livro trilíngue, com muito amor e dedicação, graças ao apoio da equipe da CNL e do nosso vice-presidente Daniel Luxo”, contou.
Ishikawa também compartilhou suas impressões sobre o amigo, que conheceu quando ele era diretor da Associação de Nikkeis e Japoneses no Exterior. “Ele era carismático, simples, humilde, e sempre deu prioridade aos jovens. Em sua última visita ao Brasil, levei-o à minha fazenda, onde reuni dezenas de adolescentes e jovens adultos que o admiram — esse encontro, e tantas outras fotos com gerações diferentes, compõem grande parte do livro.” Ressaltou ainda a clareza de pensamento de Morimoto sobre a identidade nipo-brasileira: “Ele sempre dizia que, enquanto os nikkeis americanos costumam deixar raízes de lado para se integrar, nós, brasileiros, carregamos uma dupla identidade plena: somos 100% brasileiros e 100% japoneses, e isso é a nossa maior força.”
Masato Ninomiya, presidente do Ciate e um dos coordenadores da obra, falou com a emoção de quem viu de perto a generosidade do homenageado. Destacou a trajetória exemplar de Morimoto: com 15 anos de carreira nos Estados Unidos e 10 no Brasil, chegou ao cargo de diretor estatutário da Sony, depois presidiu empresas como a Aiwa e a Benesse — mas nunca buscou holofotes. “Ele participou de todas as edições do Fórum de Integração arcando pessoalmente com viagens e hospedagem. Em um tempo onde tantos buscam autopromoção nas entidades, ele serviu sem esperar nada em troca, investindo recursos próprios no bem comum”, lembrou. Após se aposentar dos negócios, dedicou-se ainda mais a fortalecer laços entre nikkeis de todo o mundo, sempre com um único foco: “formar as lideranças que vão cuidar da nossa comunidade no futuro.”
Por fim, Ricardo Nishimura, presidente da Comissão do Projeto Kakehashi do Bunkyo, emocionou os presentes ao contar a história de sua aproximação com Morimoto. Abriu sua fala com um depoimento gravado por Mauricio Miyazaki, que está no Japão e levará pessoalmente os mil tsurus e um exemplar do livro até Morimoto.
Nishimura lembrou que, desde 2014, sempre que Morimoto vinha ao Brasil, organizava sua agenda por quase uma semana inteira — reuniões, encontros com jovens, jantares com funcionários da Sony e com famílias de amigos. “Ele era transparente, autêntico, e preferia sempre abrir caminhos para outros a ocupar a cena. Quando compartilhei com ele a ideia de promover os valores nikkeis no Brasil, ele apoiou de primeira, e disse: ‘vá em frente, isso é fundamental'”, contou. A sugestão de registrar sua história partiu do próprio Nishimura: “Em menos de dez dias, ele enviou todo o manuscrito, cheio de lições de vida.”
A noite se encerrou com a exibição do vídeo gravado por Masayoshi Morimoto, e com um pedido comum a todos os presentes: que a força e a generosidade que ele dedicou ao Brasil retornem a ele em conforto e paz.
(Aldo Shiguti)





