Realizada de 5 a 7 de junho, a 22ª edição da Convenção Panamericana Nikkei (Copani) correspondeu todas as expectativas. Com suas principais atividades concentradas no Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social –, no bairro da Liberdade, em São Paulo, a convenção contou com a participação de representantes de 14 países das Américas, além do Japão.
Considerado um dos principais acontecimentos da comunidade nikkei internacional, a Copani acontece a cada dois anos – a edição de 2024 foi realizada em Assunção, no Paraguai – com o intuito de fortalecer os laços entre os nikkeis das Américas, estimular o diálogo construtivo e reafirmar o papel dos nikkeis como referência na preservação e difusão da cultura japonesa fora do Japão.
Uma realização dos voluntários do Bunkyo e da APN – Associação Panamericana Nikkei –, o evento – que retornou a São Paulo depois de 19 anos – a última tinha sido em 2007 – teve como tema “Liderando a Mudança” e contou com uma programação diversificada que incluiu painéis, palestras e fóruns, além do Concurso Pan-Americano da Canção Japonesa e o Encontro Latino-Americano de Ex-Bolsistas do Gaimusho Kenshusei.

Na sexta, primeiro dia da Copani, a programação contou com a presença de uma convidada especial, a presidente da Fundação para Contribuição Social, Akie Abe. Estiveram presentes também o embaixador do Japão no Brasil, Yasushi Noguchi; a cônsul geral do Japão em São Paulo, Yoriko Suzuki; o presidente da APN, Valter Sassaki; o presidente da Comissão Organizadora, Claudio Kurita; o presidente do Bunkyo, Roberto Nishio; o presidente da Associação Kaigai Nikkeijin Kyokai, Katsuyuki Tanaka; o representante-chefe Jica Brasil, Akihiro Miyazaki; o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho da Cidade de São Paulo, Rodrigo Hayashi Goulart; o deputado federal Kim Kataguiri e os vereadores George Hato e Kenji Ito; além de pré-candidatos a deputado estadual e federal.
Em seu discurso, Cláudio Kurita posicionou o Bunkyo como “a casa da comunidade nipo-brasileira” e, em nome da delegação do Paraguai – a maior da Copani – agradeceu a presença de representantes dos países participantes.
Em nome da APN, entidade que congrega 15 países e que em 2026 celebra 45 anos de atividades, Valter Sassaki deu boas-vindas a todas as delegações. “A Copani representa a maior expressão de união da comunidade nikkei das Américas. Sua realização a cada dois anos em diferentes países atende os objetivos estabelecidos nos seus estatutos: congregar as instituições nikkeis dos países membros, promover atividades e intercâmbios que resultem em benefícios mútuos para as nossas entidades e para os nossos países, fortalecer os laços de amizade e cooperação entre nossas comunidades e promover a difusão e a preservação da procura e dos valores japoneses que constituem a base da nossa identidade”, destacou Sassaki.
Ele explicou que, ao longo das últimas décadas, a comunidade nikkei construiu um patrimônio extraordinário em todo o continente. “Temos o dever de preservar esse patrimônio, não apenas em sua dimensão física, mas principalmente em sua dimensão humana, cultural e moral”, disse, acrescentando que “a participação dos jovens ocupa um lugar central em nossas preocupações e em nossos projetos”.

“A Copani deve ser também um espaço para aproximar as novas gerações, estimular intercâmbios, promover amizades e criar oportunidades para que os jovens nikkeis de diferentes países compartilhem experiências, sonhos e projetos. Precisamos motivá-los a conhecer as suas raízes, a participar das entidades comunitárias e assumir gradativamente a responsabilidade e conduzir as instituições que herdamos”, destacou, lembrando que, “desde a histórica visita do primeiro-ministro Shinzo Abe à América Latina e ao Caribe, em 2014, foram reafirmadas três importantes diretrizes para a colaboração com a comunidade nikkei da região.
“A primeira, reconhecer que a confiança conquistada pela comunidade nikkei ao longo das gerações constitui um dos pilares da credibilidade e da presença do Japão em nossos países. A segunda, fortalecer os vínculos entre os jovens líderes nikkeis da América Latina e do Caribe, incentivando a sua formação e a sua integração. E a terceira, fortalecer os laços por meio de ações que contribuam para a construção de um Japão do qual as comunidades nikkeis possam sentir cada vez mais orgulho. Esses princípios continuam extremamente atuais e devem servir de inspiração para todos nós”, afirmou.
Para ele, no entanto, a missão de preservar os valores e a cultura japonesa nas Américas não poderá ser realizada apenas pelas entidades nikkeis desses países. “Será fundamental ampliar o apoio e a colaboração do governo japonês por meio de suas embaixadas, consulados, instituições de intercâmbio cultural, programas educacionais, iniciativas que aproximem cada vez mais os nossos jovens do Japão contemporâneo”, afirmou Sassaki, que citou, em especial, o papel da Jica através de seu programa de voluntários, trazendo profissionais da área de saúde, da assistência social e da área esportiva, para ajudar as instituições locais, seja através de apoio financeiro em algum projeto de investimento, fomentando o uso e a divulgação de produtos japoneses nos países, seja em projeto agrícola ou de infraestrutura, ajudando o desenvolvimento tecnológico dos diversos países.
“Quanto maior for o intercâmbio dos nossos países, maior será o interesse das novas gerações em manter os laços com suas origens. Ao iniciarmos essa vigésima segunda Copani, renovamos nosso compromisso com a integração pan-americana, com a valorização da nossa história e com a construção de um futuro”, concluiu Sassaki.
Katsuyuki Tanaka destacou que, em um mundo conturbado, em que se observa um aumento de movimentos movidos pela discriminação racial e xenofobia, torna-se de fundamental importância reconhecer a importância das comunidades nikkeis, que superaram inúmeras dificuldades graças às virtudes como a honestidade, a diligência, a humildade e a perseverança, contribuindo ao desenvolvimento dos países e regiões onde eles vivem.
Ele também destacou a parceria entre a APN e a Associação Kaigai Nikkeijin Kyokai, que tem sua sede em Yokohama e organiza anualmente a Convenção dos Nikkeis e Japoneses no Exterior (Kaigai Nikkeijin Taikai), evento que atua como uma ponte global que liga as comunidades de descendentes japoneses espalhadas pelo mundo com o Japão.
Segundo ele, a cooperação tem se fortalecido desde 2018, quando ambas as organizações se uniram para estabelecer o Dia Internacional do Nikkei, celebrado sempre no dia 20 de junho. Na cidade de São Paulo, o dia foi incluído no calendário oficial de eventos pelo então vereador Aurélio Nomura.
Presidente do Bunkyo, Roberto Nishio dirigiu uma saudação especial às autoridades japonesas e frisou que a Copani “representa muito mais que um encontro festivo”. “Ela é um espaço de integração e fortalecimento dos valores que herdamos dos nossos ancestrais: o respeito, a perseverança, o espírito comunitário e a valorização da educação e da cultura japonesa”, disse Nishio, afirmando que “ao longo de décadas os nikkeis contribuíram de maneira significativa para o desenvolvimento dos países onde se estabeleceram, construindo pontes entre culturas e ajudando a promover a convivência harmoniosa entre diferentes povos”.

“Essa trajetória nos inspira e nos traz a responsabilidade de continuar cultivando esses valores para as novas gerações”, frisou Nishio, que fez uma saudação especial a Akie Abe. “Ao recebê-la, recordamos com respeito e saudade a inspiradora liderança do inesquecível primeiro-ministro Shinzo Abe que tão profundamente valorizou os nikkeis ao redor do mundo”, explicou o presidente do Bunkyo, que lembrou um trecho do discurso de Abe, que pregou a necessidade de prosperar juntos, liderar juntos e inspirar juntos.
“Esses princípios traduzem com clareza o papel das comunidades nikkeis no mundo contemporâneo. ‘Prosperar juntos’ significa crescer de forma solidária, compartilhando oportunidades e fortalecendo nossas comunidades; ‘liderar juntos’ é assumir com responsabilidade e espírito coletivo a missão de construir sociedades melhores e ‘inspirar juntos’ é transmitir às futuras gerações os valores, a cultura e o legado humano que recebemos dos nossos antepassados”, concluiu Nishio.
Representando o prefeito Ricardo Nunes, o secretário Rodrigo Goulart destacou que “São Paulo não se tornou o coração financeiro da América Latina por acaso”. “Nossa força vem da diversidade, da resiliência e da capacidade de se reinventar. Como gestor público e descendente orgulhoso da imigração, sinto o peso e valor do legado nikkei”, afirmou Goulart, cujos avós vieram em 1929 no Hawai Maru.
Ele salientou a importância da presença da comunidade japonesa no Brasil, que abriga a maior população nikkei do mundo fora do Japão. “Só em São Paulo são mais de 176 mil pessoas, além das quase mil empresas ativas na cidade de São Paulo e 700 mil empreendedores. Os valores de excelência e precisão desse DNA moldaram a nossa identidade e servem como uma ponte fundamental em tempo de divisões globais”, enalteceu o secretário, explicando que o lema da 22ª Copani, “Liderando a Mudança”, “reflete exatamente o que fazemos na Prefeitura”.

“Ir além do discurso de mercado significa mudar a paisagem urbana. É por isso que reformamos a acessibilidade do Pavilhão Japonês do Parque do Ibirapuera; estamos construindo a Esplanada da Liberdade – e aqui faço um destaque ao trabalho do diretor da SP Negócios, Aurélio Nomura –; apoiamos também o Festival do Japão e estimulamos a juventude com iniciativas como o Hackathon Ade Sampa Bairro da Liberdade”, finalizou Goulart.
Como no dia anterior, quando fez um discurso emocionado na Recepção na Residência Oficial da Cônsul Geral, Akie Abe voltou a emocionar o público presente no Grande Auditório do Bunkyo.
Na Residência da Cônsul, Akie Abe havia dito que “o fato de o congresso ser realizado em São Paulo me parece algo que demonstra, pela primeira vez de modo pleno, o papel que o Brasil ocupa [neste cenário]”, afirmando que o seu marido, Shinzo Abe, costumava dizer que são os laços entre pessoas e pessoas que formam os vínculos entre países. Durante sua passagem pelo Bunkyo, visitou o jardim da entidade, localizado na entrada do edifício, onde está o monumento de pedra com a gravação “Prosperidade do Japão e do Brasil. Juntos”, do “kigo” transposto de shodô, de autoria de Shinzo Abe, que celebra a visita dele em 2014, e ficou conhecendo um pouco mais sobre a trajetória dos imigrantes japoneses no Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, onde foi ciceroneada pela presidente da Comissão de Administração do Museu, Lidia Yamashita.
Presente na cerimônia de abertura, o ex-vereador e ex-deputado federal Antonio Goulart lembrou sua ligação com a comunidade japonesa. Casado com a nikkei Kazuko Hayashi, com quem tem dois filhos – Fabio e Rodrigo Goulart –, conta que costuma frequentar os kaikans, em especial os da zona Sul de São Paulo, e, como vereador, foi um dos responsáveis pela criação da Comissão de Festejos do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. “E hoje nós temos o privilégio de ter o meu filho, vereador licenciado e atualmente secretário, que tem também o sobrenome que ajuda bastante nessa interação com a comunidade e tem procurado aumentar cada vez mais esse intercâmbio de amizade e cultura, preservando essa cultura japonesa no Brasil”, disse Goulart, afirmando que futuramente pretende reforçar ainda mais essa relação.

Deputado federal, Kim Kataguiri exaltou o espírito de união dos nikkeis e destacou a importância da visita de Akie Abe. “É uma alegria ver a comunidade nikkei tão integrada”, afirmou. Parlamentar com uma relação muito próxima à comunidade japonesa, Walter Ihoshi disse que “não imaginava a dimensão da nossa comunidade fora do Brasil”. “É impressionante que nós temos descendentes em vários países das Américas, como El Salvador e Cuba. E mais gratificante ainda é ver a participação dos jovens”, assegurou Ihoshi.
A programação prosseguiu com a realização do Painel “Impacto de Nikkeis na Sociedade: Projetos que Transformam Realidades”, com o promotor de justiça e idealizador de múltiplos projetos sociais, Enilson Komono, e a campeã brasileira de judô e referência em formação de jovens em comunidades vulneráveis, Silvana Nagai. O encontro contou com a participação e mediação da fundadora da REN (Rede de Empreendedores Nikkeis) Brasil, Lesley Ishii.
Na sequência, um coquetel de confraternização e uma visita ao Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil encerrou a programação.
(Aldo Shiguti)






