Home / História e Tradição / Família Morita: um retrato da história  da Colônia Japonesa de Itaquera

Família Morita: um retrato da história  da Colônia Japonesa de Itaquera

O sucesso da produção hortifrutigranjeira na Colônia de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, iniciada em 1925 por imigrantes japoneses, despertou a atenção do jovem Hisaji Morita. Vindo da província de Nagano, no Japão, ele desembarcou no Brasil com muitos sonhos e, ao lado da esposa Kesako, apressou-se em conhecer o bairro da Colônia, que já despontava como um polo agroindustrial da cidade de São Paulo.

Em 1935, Hisaji — cujo nome hoje batiza a rua de acesso à propriedade — adquiriu um lote de oito hectares para o cultivo de hortaliças, criação de aves e fruticultura. Nesse segmento colaborou e incentivou muitas famílias nikkeis produtoras de pêssego, participando ativamente das etapas de produção dessa fruta, que tornaria Itaquera conhecida nacionalmente como a “Terra do Pêssego”.

A partir de 1970, seu filho Masaru buscou novas frentes e passou a cultivar flores. A atividade prosperou rapidamente devido à qualidade do solo e à proximidade com o centro consumidor da capital, chegando a ser tema de reportagens em veículos como o Globo Rural.

“Em 2012, por conta da abertura da Copa do Mundo em Itaquera, atendemos vários jornalistas que vieram destacar as curiosidades do bairro”, relembra o engenheiro agrônomo Massaki, representante da terceira geração da família. Desde que se formou, Massaki passou a administrar a propriedade ao lado do pai.

No entanto, em dezembro de 2024, essa parceria foi interrompida pelo falecimento de Masaru. Seis meses depois, em junho de 2025, Massaki também perdeu a mãe. Ainda se refazendo desse duro golpe, ele luta bravamente para manter vivo um legado de mais de 90 anos de história, marcado por trabalho, persistência e amor à terra.

Tradição e preservação – Para manter as atividades, Massaki utiliza um antigo galpão onde expõe e comercializa variedades como estrelícia, copo-de-leite, helicônia e folhagens para atender floricultores, floristas e decoradores. Nessa construção, um detalhe desperta a curiosidade: uma das paredes originais ainda preserva o método de taipa (barro).

Seu tio Jorge Morita conhece bem o local. Ele recorda que, no início da década de 1950, os jovens do Clube dos Estudantes da Colônia preparavam o espaço, que era utilizado para embalar os produtos da chácara. “Nos finais de semana, eles realizavam festas e bailes, iluminados por um pequeno gerador”, conta Jorge, que é técnico agrícola e ex-jogador de beisebol do time de Itaquera. Hoje, ele e a esposa cultivam alface e outras folhagens na parte baixa da propriedade.

Compromisso com a natureza – No coração da chácara, uma densa vegetação nativa chama a atenção de quem visita. Massaki explica que a preservação é um ensinamento de seu avô Hisaji, que considerava aquele espaço sagrado. Um lago com peixes como pacus, carpas e tilápias completa o belo cenário. Só lamenta que uma obra numa propriedade vizinha tenha afetado a qualidade da água, recentemente.

Além das flores e hortaliças, a propriedade abriga espécies exóticas como noz-macadâmia e vestígios de uma antiga castanheira-portuguesa, que sucumbiu às fortes chuvas do final do ano passado.

Mais do que agricultura, os imigrantes japoneses deixaram um legado de educação, disciplina e respeito. Ao encerrar a conversa, Massaki Morita expressa muita preocupação com o avanço urbano desenfreado. Ele trava, diariamente, uma luta feroz para preservar a natureza e manter as atividades agrícolas herdadas de seus antepassados, resistindo como um dos últimos guardiões rurais da Colônia de Itaquera.

(Osmar Maeda, especial para o jornal Brasil Nikkei)