O cantor Eduardo está celebrando dez anos de carreira profissional no Japão. Nascido no Jabaquara, zona sul de São Paulo, como Eduardo Toshiaki Yoshikawa Ferreira, o artista entrou para a história como o primeiro brasileiro a se dedicar profissionalmente ao estilo enka. O cantor, que esteve recentemente em turnê pelo Brasil após oito anos, concedeu entrevista ao Brasil Nikkei onde falou da nova fase na gravadora, dos desafios da carreira e da emoção de reencontrar o público brasileiro.
Apesar do nome artístico, Eduardo explica que “sempre foi Eduardo”. “Ocorre que meu perfil no Facebook, por residir na região de Kanto, exibia o título ‘Eduardo Kanto’, o que gerou a interpretação equivocada de que ‘Kanto’ seria meu nome artístico”, conta, lembrando que, no Brasil, antes de ir para o Japão, se apresentava apenas como Toshiaki Yoshikawa nos concursos de taikai.

“Quando iniciei a carreira no Japão, avaliamos que, pela minha fisionomia brasileira, seria interessante utilizar o nome artístico ‘Eduardo’ para manter a autenticidade, preservando o impacto de ser o primeiro cantor brasileiro do estilo enka”, afirma.
Filho adotivo de Natsue, nissei natural de Pereira Barreto, e Antônio Eduardo, Eduardo nasceu em São Paulo e foi adotado com apenas dois dias de vida. Entre os oito e os 11 anos, viveu em Kyoto com os pais, período em que frequentou o ensino primário japonês e consolidou a fluência no idioma.
De volta ao Brasil, estudou música com o saudoso professor e maestro Akihisa Kitagawa, a quem chama de mestre e mentor. Foram cerca de 15 anos de dedicação ao idioma e à música. “Embora o sucesso no Japão tenha parecido rápido aos olhos de muitos, ele foi o resultado de anos de preparação”, afirma.
A música também entrou em sua vida por influência familiar. O tio materno, Katsuhiro Yoshikawa, era apaixonado pela música japonesa e tinha o sonho de ser cantor. Como não conseguiu seguir esse caminho, passou a incentivar o sobrinho, levando-o a concursos de karaokê em São Paulo.
A história pessoal se tornou sua música de estreia. “Minha música de estreia, Haha Kizuna, retrata exatamente essa história”, diz, acrescentando que a narrativa sensível gerou conexão profunda com o público japonês, onde está há 16 anos.
“Fui com o objetivo de morar e almejar uma carreira na música. Trabalhei em fábricas durante cinco anos até que, em 2015, realizei o sonho de me profissionalizar. Foi um momento muito oportuno, coincidindo com o ano das Olimpíadas no Rio de Janeiro, quando me lancei oficialmente como o primeiro cantor brasileiro do gênero enka.”

O pioneirismo brasileiro no Japão, lembra, começou com Carlos Toshiki nos anos 80 e a cantora Márcia, de Mogi das Cruzes, primeira voz feminina brasileira de destaque no país.
Contratado pela Teichiku Records, onde permaneceu por nove anos, Eduardo lançou sete singles e um álbum completo com doze faixas. O reconhecimento veio rápido. Em 2016, foi agraciado com o prêmio revelação no 49º Nihon Yusen Taisho, sendo o único cantor premiado naquela edição. No ano seguinte, Harakizuna recebeu distinção da Associação de Compositores do Japão por alcançar 35 mil cópias vendidas — marca notável que o colocou próximo aos critérios do prestigiado Kohaku Uta Gassen, da NHK.
“Por ser uma novidade, fui convidado a participar de diversos programas musicais e de variedades em grandes emissoras, como Fuji TV, TV Asahi e NHK”, lembra. Há cerca de um ano está de gravadora nova, a Gogo Records, cujo proprietário, Toru Suzuki, já acompanhava sua carreira e o convidou para ser o primeiro artista contratado.
“O primeiro CD que lancei pela Gogo Records marcou o início da minha trajetória com o selo, após um período de nove anos na Teichiku. Atualmente, a Gogo Records já conta com cerca de sete artistas com obras lançadas”, disse. Além da gravadora, Suzuki organiza anualmente o “Gogo Hai”, tradicional concurso de karaokê da região de Kanto. A final deste ano acontece no dia 30 de novembro, no Sirius Hall, em Yamato, província de Kanagawa, e terá Eduardo como um dos artistas convidados. Eduardo também estabeleceu a ponte entre a Gogo e o Brasil, oferecendo aos interessados a oportunidade de participar do concurso no Japão. Neste ano, os representantes brasileiros serão Harumi Miyamura, atual campeã brasileira, e Yuji Morita.

Com agenda cheia todos os meses — são cerca de 6 a 8 shows mensais —, Eduardo conta que teve que enfrentar muitos obstáculos para conseguir vencer na carreira. Em 2020, em plena pandemia, foi diagnosticado com Mielite Transversa, doença bastante rara e autoimune causada por uma inflamação na medula espinhal, que o obrigou a interromper temporariamente suas atividades.
“Diante da minha condição e da dificuldade em arcar com as despesas médicas, um grupo de 34 pessoas no Brasil, liderado por Fábio Toma, organizou uma live beneficente. Graças a essa iniciativa, consegui custear meu tratamento. Posteriormente, essa história foi televisionada pela NHK no Japão.”
Neste segundo retorno ao Brasil — esteve em 2018 para as comemorações dos 110 Anos da Imigração Japonesa —, Eduardo ficou dois meses, período em que fez doze apresentações, incluindo cidades inéditas para o cantor como Foz do Iguaçu, São José do Rio Preto (Mostra Japão), Piracicaba (Festival da Primavera), São Bernardo do Campo, Arujá, Guarulhos, além de Maringá (35º Festival Nipo-Brasileiro) e Salvador (18º Festival da Cultura Japonesa de Salvador), além do espetáculo “Ongaeshi”, ou “Retribuição”, no Nikkey Palace Hotel, em São Paulo.
“Celebrar dez anos de carreira tem sido, portanto, um marco significativo, permitindo-me estar presente em locais onde minha presença era solicitada pelo próprio público brasileiro, que, com entusiasmo, incentivou minha participação em diversos eventos e festivais.”

Para marcar a data, Eduardo trabalha a música “Hana no Mai” (Dança das Flores, Shingo/Hanzo). Segundo ele, a obra retrata cada etapa superada e cada dificuldade vencida como flores que desabrocham em sorrisos. “Musicalmente, a canção aposta no Rock Enka, vertente mais dinâmica e dançante que o enka tradicional. Ao nos apresentarmos nos palcos brasileiros, percebemos que mais de 90% do público, majoritariamente não japonês, responde de forma entusiasta ao estilo, justamente por ser mais animado e permitir uma interação direta”, conta, explicando que a diferença de público entre os dois países é marcante. “No Japão, existe uma norma social de introspecção e respeito ao silêncio; o público tende a ouvir as apresentações de forma contida. Em contrapartida, no Brasil, a participação do público é orgânica e espontânea. A energia é contagiante.”

Com uma base sólida construída com 15 anos de estudo no Brasil e passagem pela escola primária em Kyoto, Eduardo deixa um conselho para quem sonha com a carreira no Japão. “Para vencer lá, além de persistência e determinação, considero o domínio da língua japonesa o fator determinante. No Japão o artista é responsável por toda a sua performance: precisa conduzir o espetáculo, interagir com a plateia e transmitir a energia necessária de forma independente. Sem o domínio do idioma, esse processo torna-se inviável.”
Para o futuro, os planos incluem uma possível turnê em 2027 e um olhar especial para 2028, nos 120 anos da imigração japonesa no Brasil. Até lá, segue dedicado ao “Hana no Mai” e ao sonho que move todo cantor de enka: pisar no palco do Kohaku Uta Gassen, da NHK. “O Kōhaku Uta Gassen da emissora NHK representa, mais do que um destino final, um ponto de partida fundamental, sendo este o grande objetivo de todo cantor no Japão”, diz Eduardo, que em dezembro completará 43 anos de vida.
(Aldo Shiguti)





