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‘Eu e minha avó centenária’: confira o conto vencedor do 1º Concurso de Histórias sobre Família Nikkei

Por Graziela Tamanaha

Quando ela se foi, em 2010, o mundo já era digital e o Brasil elegia a primeira mulher como Presidente da República enquanto a Seleção Brasileira era eliminada nas quartas de final da Copa do Mundo. Minha obá não apenas atravessou o século; ela carregou muitas batalhas enquanto fez do Brasil o seu lar. 

No mesmo ano que os primeiros imigrantes partiram de suas terras e o Kasato Maru aportou em Santos, Kame nasceu, em 18 de maio de 1908, em Nishihara – Okinawa.

Okinawa é conhecida por seu clima tropical, idioma próprio – uchinaguchi, e uma história de resiliência. Terra do famoso instrumento de cordas e do som característico, sanshin, composta por um corpo feito com pele de cobra (hoje sintético) e 3 cordas com afinação C-F-C (dó-fá-dó).

Kame viveu uma vida simples ao lado de sua família, onde desde cedo foi trabalhar na roça e aprendeu a se virar. Em Okinawa conheceu o meu odi Seikiti, quatro anos mais velho que ela, nascido em Naha e que trabalhava como comerciante.

Um tempo depois, assim como todos os imigrantes que buscavam por uma vida melhor, decidiram vir para o Brasil. Odi fez sua mala e partiu primeiro, para conhecer as prometidas terras brasileiras e descobrir onde ele estava levando sua família. Nesses quase dois meses de viagem de navio, muitas coisas devem ter passado pela sua cabeça: medo do novo, incertezas sobre o trabalho, barreira linguística, entre muitas outras. 

ゆるはらすふにや にぬふあぶしみあち (Yuruha rasu funi ya ninu fua bushi miati) 

Assim como os navios que navegam a noite e são orientados a seguir a estrela do norte

わんなちぇるうやや わんづみあち (Wan na cheru uyaya wandu miati)

Para navegar em segurança 

わんなちぇるうやや わんづみあち (Wan na cheru uyaya wandu miati)

Eu sou guiado pelos meus pais, que me deram a luz e cuidam de mim – Tinsagu nu Hana – Canção Folclórica tradicional de Okinawa.

Assim que o navio aportou em Santos o respiro foi de alívio por pisar em terra firme, mas logo precisava providenciar sua nova morada. Ali, um novo capítulo daria início à história da família.

Já instalado num cortiço, teve pouquíssimo contato com a minha obá através de cartas. A carta, que não era uma conversa, era um monólogo em câmera lenta, levava quase uma viagem de navio para chegar. A saudade de vê-la apertava enquanto contava os dias para se reencontrarem. 

Um tempo depois, obá reuniu seus itens mais preciosos numa pequena mala e decidiu vir para o Brasil. E lá ela partiu na saga dos dias e noites intermináveis. Após dias no navio, o Porto de Santos a atingiu como uma batida seca. O burburinho ansioso dos passageiros foi engolido pela barulheira da cidade, enquanto o chão não balançava mais, mas o seu mundo sim.

O suspiro de alívio e um calor no coração tomou conta quando se encontrou com o odi. Eles finalmente estavam juntos e poderiam viver a vida.

Alguns anos depois, já acostumados com o clima tropical, os filhos começaram a nascer. Santos foi o local que escolheram para ser o seu lar e construir sua família. Meu odi sempre foi muito rígido com a educação, e apesar da pouca instrução escolar, nunca deixou de ser um pai presente na vida dos filhos. Meu pai era o caçula dos 9 irmãos e sempre me contava as histórias e peripécias de sua infância no canal 4, referência geográfica em Santos. 

Os anos se passaram e a família se mudou para São Paulo em busca de novas oportunidades. O choque foi enorme ao chegar na maior metrópole do país. Os filhos precisavam batalhar para serem alguém no futuro e cuidar de seus pais que iam envelhecendo. 

A tradição determinava que o mais velho cuidasse dos pais, mas conosco não foi bem assim. Mesmo meu pai sendo o caçula, ele quem cuidou dela, até que veio a falecer. Por isso eu vivia com a obá desde o dia em que eu nasci. Obá tinha 87 anos e, apesar da idade avançada, me pegava no colo, ajudava a minha mãe, e não media esforços para ajudar na minha criação. Eu sou a neta caçula e tenho primos de segundo grau mais velhos que eu, que carinhosamente chamo de tios e tias.

Obá sempre foi ativa, gostava de bater perna na rua, frequentava o kaikan e procurava ter uma vida social. Numa lembrança, meu pai me contava sobre o início dos anos 90, o kaikan estava organizando uma excursão para Okinawa. Com muito esforço, meu pai separou um dinheiro e providenciou as papeladas da viagem, e obá empolgada com a ideia de voltar ao seu país de origem. Desde que saiu de lá, essa seria a primeira a única vez que retornaria ao país. 

Meu pai jogava na loteria de vez em quando, e um dia, sentado no sofá de casa, assistia a tv enquanto conferia os volantes dos jogos. Os números foram anunciados.

— Ganhei! Eu fiz a Sena!

Imediatamente, ele destinou esse dinheiro para quitar o restante das parcelas da viagem. O valor do prêmio não era muito grande, mas já ajudou, pois para ele, era o sonho de sua mãe se tornando realidade.

Mais uma vez, obá pegou sua mala, dessa vez, com o desejo de se reencontrar com o mar azul de Okinawa. Os dias se passaram e ela reencontrou lugares e pessoas que não via a anos. 

No caminho de volta, o avião fez escala nos EUA e a região sofria com fortes tempestades, impedindo-o de continuar a viagem. Obá teve que ficar uns dias a mais da viagem por lá, e por sorte, estava acompanhada dos amigos que ajudaram a fazer contato telefônico para avisar a família. Ao voltar para casa, fico imaginando uma senhora de mais de oitenta anos, em outro país, tendo que se virar com a cara e a coragem, contando todas as suas experiências.

Aos domingos, obá ia no kaikan encontrar as amigas e em épocas especiais ela voltava para casa com um omiyague. Na minha memória lembro dia que perguntei: 

— Obá, o que é tudo isso?

Ela com seu jeitinho respondeu:

— Esse é caderno para bocê escreber. Estaba brincando, corendo – a fala dela carregada com o sotaque japonês.

Obá se referia a uma sacola com vários itens de papelaria: lápis, caderno e caneta, que havia ganhado no undoukai, e me deu de presente.

Ela também gostava de praticar leitura em seu livro em japonês. De tanto que manuseava, o livro já estava com as folhas gastas, capa meio solta, mas continuava sua leitura diária.

— Um, doisu, turesu, quaturo, chinco, seisu, sete, oito, nobe, deisu.

Era assim que ela contava os números para manter a cabeça ativa e foi assim que eu aprendi a contar também. Meus pais acharam incrível quando perceberam que eu contava até dez igual a obá. 

Naquele tempo, eu não tinha a real percepção da idade dela, mas para uma criança, ela não me parecia tão idosa. Não lembro dela cozinhando, somente por fotos, onde meu pai adorava fotografá-la, e minha mãe sempre comenta que o feijão que obá fazia era o melhor. O cheiro, a textura, o sabor, era um prato que ela aprendeu a fazer no Brasil e foi aprimorando. Eu devo ter comido quando bem pequena, mas infelizmente não me lembro do sabor, mas consigo imaginar.

“Entregando um buquê de flores para obá” (Carlos Nakamura)

Obá e eu éramos inseparáveis, onde ela estava eu ia atrás. Sou filha única, então ela sempre foi minha companhia, eu penteava seu cabelo curto e grisalho, pintava as unhas enquanto observava suas mãos calejadas e com os nós dos dedos aparente, arrumava sua roupa e nos divertíamos juntas.

Eu não cozinho com frequência, mas quando faço, gosto de fazer doce. Nas festas de final de ano, obá fazia moti, e eu, como uma boa ajudante, espalhava maisena no moti e na casa toda. Talvez a influência dela fazendo essas iguarias tenha despertado algo em mim.

Por influência da minha tia mais velha, toda manhã obá assistia um pastor que passava na tv aberta. Em cima da tv de tubo colocava um copo de água para que fosse benzido. Ao término do programa ela agradecia e bebia aquela água. Manteve esse ritual por anos, mas não me lembro quando deixou de fazer.

Ton-ten-kan – esse era o som que a corda de koto fazia. Obá guardava atrás da porta do quarto, coberto por um pano azul listrado, um objeto que instigava a minha curiosidade. Eu abria um pouco mais o rasgo que já tinha para saber o que era. Era uma madeira grande, com marcas do tempo, cordas de aço, finas e grossas. “Don” soava a corda mais grave, “ten” a corda mais fina. Sempre que passava pelo quarto dela, queria mexer nas cordas do koto, sem saber que aquele instrumento havia cruzado o oceano junto da obá e carregava uma parte dela que ficou em Okinawa. Pensando bem, nem sei como ela o adquiriu, mas é uma das relíquias que tenho até hoje.

“Obá cumprimentando vossa alteza imperial Naruhito” (Internet)

Os anos se passaram e a cada aniversário que comemoramos era motivo de alegria! Em 2008 ela completou 100 anos, uma década de vida. Os filhos decidiram comemorar com uma superfesta. Escolheram o local, o kaikan que ela frequentava e era sua segunda casa, as comidas no estilo nipo-brasileiro, como salgadinhos de festa, frutas, sushi, sashimi, tudo pensando nos mínimos detalhes. Eu tinha uma missão especial: entregar um buquê para obá. No dia da festa vesti um yukata vermelho com flores amarelas e um obi amarelo mostarda, que ganhei da minha batian .

A festa contou com apresentações musicais de Okinawa, como o sanshin e a dança Kagyadefu, reconhecida como uma peça fundamental para celebrar a alegria, a longevidade e a prosperidade. Foi um momento para reunir a família e amigos que não víamos há um tempo. Nesse dia eu conheci o famoso shishimai, o leão utilizado nas danças okinawanas. Eu estava parada na frente da porta que ele ia passar, mas não percebi, só me dei conta quando ele bateu forte os dentes e fez barulho. O ponto alto da festa foi o registro da foto da família. O único registro que estamos a maioria juntos. Nos arrumamos por ordem de tamanho e sorrimos muito contentes por comemorarmos os 100 anos da obá. 

“Parabéns para você, nesta data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida”.

Neste mesmo ano, obá recebeu uma correspondência especial vindo de uma entidade importante e respeitada em São Paulo, o Bunkyo. Na carta havia um convite exclusivo para participar da recepção do Príncipe Naruhito, hoje Imperador do Japão. Segundo pesquisas na internet, somente 8 imigrantes de até 99 anos participaram desta recepção. O convite era limitado a 1 acompanhante e minha mãe foi junto, pois caso precisasse falar em japonês, ela se virava melhor que meu pai. A internet ainda não fazia parte do meu dia a dia, então enquanto tentava descobrir mais sobre o príncipe, meu pai movia o mundo para conseguir um carro emprestado, já que no dia da recepção era rodízio do nosso. 

“Eu, indicada na seta vermelha, na troca de gestão do seinenkai em 2023” (Seinen Bunkyo)

Meu padrinho emprestou seu carro, um quantum marrom, companheiro de suas pescarias, para ser o carro que levaria obá até o encontro do príncipe Naruhito. 

Eu queria muito ir à recepção, nem que fosse ficar esperando no estacionamento, mas era no meio da semana e meu pai me disse:

— Você precisa ir para a escola. Vou te levar de manhãzinha e depois vou levá-las para a recepção.

Um pouco chateada fui para a escola, mas queria que o dia passasse rápido para eu voltar para casa e saber como foi.

Nos dias que antecederam o encontro ensinei minha mãe a manusear minha câmera digital:

— Gira aqui para ligar. Quando quiser tirar a foto, clica no obturador e espera focar. Depois segure o botão e bate a foto.

O grande dia chegou! Havia muitos jornalistas e veículos de comunicação espalhados pelo espaço. Os convidados foram posicionados no hall do prédio do Bunkyo e seus acompanhantes atrás das respectivas cadeiras. Bandeirinhas do Brasil e Japão em mãos, pronto para aquele momento que levaria segundos, mas marcaria eternamente a memória dos convidados. O encontro foi rápido, mas rendeu um clique memorável. Minha obá cumprimentando uma pessoa da Família Imperial Japonesa. Não tivemos acesso às fotos oficiais, mas depois de alguns anos vasculhando a internet, encontrei o clique perfeito. Que alívio eternizar esse momento histórico. Meu pai com um sorriso enorme no rosto dizia admirando a foto:

— Este momento ficará guardado para sempre na nossa família. Nunca se esqueça.

“Obá indicada na seta amarela e os demais homenageados em 2008 (Bunkyo)

Depois desse dia, obá foi convidada para o centenário da imigração okinawana. A festa aconteceu no Okinawa de Diadema com um número maior de convidados, e por ser num domingo, eu pude ir junto. O dia amanheceu frio, peguei o meu casaco, minha câmera e me arrumei para ir. Não me lembro da programação, mas me sentia importante tirando as fotos do dia. Obá estava nas cadeiras dos homenageados e mesmo com pouca audição, concedeu uma entrevista para um jornalista japonês.

Na hora de ir embora, cruzamos um grande toori vermelho no estacionamento, momento perfeito para uma foto. Pedi para meus pais posarem junto da obá e o certificado que ela havia ganhado.

Todos os anos, o Bunkyo realiza uma homenagem aos idosos – Hakujusha Hyoushou, um momento importante de celebração às pessoas centenárias. Lembro de entrar num prédio antigo, com um salão de estruturas de madeira que davam um ar de sofisticação e as cadeiras posicionadas no palco um tom de organização. E lá estava obá, na primeira fileira. Quando criança, não tinha o mesmo entendimento da vida adulta, mas queria ter perguntado para ela como ela se sentia sendo homenageada. Ela sempre com uma expressão alegre, imagino que estava contente.

Obá continuava vivendo sua vida, um pouco mais pacata devido a idade e a perda gradual da visão e audição, mas sabia exatamente onde estavam as coisas em casa. Se locomovia sem grandes dificuldades, por isso, não podíamos mover os móveis ou tirar as coisas do lugar.

Aos poucos, as brincadeiras com a obá diminuíram e eu me preocupava com a sua saúde. Os presentes agora eram tempo de qualidade com ela, uma refeição juntas, a hora do banho, com todos os cuidados que ela precisava.

Aos 102 anos continuava com as caminhadas diárias e mesmo sem enxergar bem, fazia os exercícios em voz alta e contava nos dedos os números: “um, doisu, turesu”.

Em meados de novembro, obá pegou uma gripe forte que não melhorava e foi para o hospital. Pela sua idade avançada e a imunidade baixa foi ficando cada vez mais debilitada. A cena dela no hospital me entristeceu e não acreditava que seu tempo de vida estava chegando ao fim. 

Kame em japonês significa tartaruga, um animal que em Okinawa é símbolo de longevidade, paciência e proteção. Ela era a tartaruga que atravessou o oceano carregando sua casa e sua família nas costas. 

Oito anos depois voltei ao prédio do Bunkyo, quando conheci um grupo de jovens. Ali eu sentia que estava prestes a começar uma jornada e não imaginava que estaria envolvida até os dias de hoje.

Quando entrei na sala do seinen, me deparei com algumas fotos na parede e uma foto me chamou atenção imediatamente. Era ela, minha obá. Acredita? No dia da recepção do príncipe Naruhito.

Interpretei como um sinal de que ela continuava me acompanhando e que eu estava fazendo o certo. O tempo foi passando e eu me reconectava com as minhas raízes. A cada nova experiência eu entendia que as culturas okinawanas e japonesas sempre fizeram parte da minha vida, e por isso, achava que era assim na vida de todo mundo. Desde então, valorizo ainda mais tudo que meus antepassados fizeram para eu ter as oportunidades de hoje. Caminhar pelo chão que a obá pisou e servir à nossa comunidade é a minha forma de honrar o tempo. Sinto o peso e o privilégio de ser a guardiã dessa linhagem: ao dar continuidade ao que ela começou, asseguro que o rastro deixado pela obá e por tantos outros pioneiros continue iluminando o caminho das próximas gerações.

Obá se tornou minha fonte de inspiração pela sua força e coragem. Ela enfrentou guerra, gripes, crise mundial, emigração, barreira linguística, dificuldade financeira e com muito suor, construiu um legado forte como ela. 

Dizem que, no fim da vida, voltamos para onde tudo começou. Em sua partida, talvez tenha reencontrado o mar de Okinawa, aquele azul que ela guardou por tantos anos sob o asfalto da cidade. Ela atravessou o século com a mesma dignidade com que atravessou o oceano: sem reclamar do peso, sem temer a tempestade. Obá tinha voltado para casa. 

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Sobre a autora:

Graziela Tamanaha é brasileira, bacharel em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda, pela Faculdades Integradas Alcântara Machado – FIAM FAAM. É sansei, com raízes em Okinawa, Hokkaido e Kumamoto e atua ativamente na comunidade nikkei.

Iniciou suas atividades com as entidades nipo-brasileira aos 19 anos e atualmente é uma liderança jovem dentro do Bunkyo. Participou de eventos no Japão e América Latina para entender a comunidade nikkei e o seu papel como fomentadora cultural, criando pontes e network entre os países.

Contato: jobs.grazi@gmail.com