Realizado no Dia do Assistente Social, 15 de maio, no quinto andar do Centro Médico e Diagnóstico (CMD) do Hospital Nipo-Brasileiro – no bairro da Liberdade, em São Paulo, a 3ª edição do Fórum das Entidades Assistenciais Nikkeis reuniu as quatro principais entidades assistenciais da comunidade nipo-brasileira: Sociedade Beneficente Casa da Esperança Kibô-no-iê; Assistência Social Dom José Gaspar Ikoi no Sono; Associação Pró-Excepcionais Kodomo no Sono e a Enkyo, realizadora do evento. Com o Auditório lotado, o encontro contou com a presença do presidente da Enkyo, Paulo Saita, que destacou a importância do evento. “Este Fórum é muito importante para discutirmos e sabermos o que cada entidade está realizando e assim compartilharmos experiências em conjunto”, disse.
Também presente na abertura, o coordenador de Projetos da Jica (Japan International Agency Cooperation), Kohei Kawazuma manifestou respeito e admiração por todas as entidades e lideranças do setor “por seu trabalho e dedicação”. “Nossas agências vêm atuando junto com a comunidade nipo-brasileira desde suas origens desenvolvendo atividades em parceria com as entidades nikkeis”, afirmou Kawazuma, explicando que, para o setor, a Jica vem cooperando através de programas de bolsas e treinamentos, além de envios de voluntários e programas de subsídios. Ele destacou ainda a experiência japonesa em lidar com o envelhecimento populacional e finalizou afirmando que a Jica está à disposição para colaborar, através de programas de bolsas e treinamentos, e fortalecer os laços entre Brasil e Japão.
Cônsul geral adjunto, Jiro Takamoto disse que sentiu a realidade de perto ao ter que lidar com a questão dentro de casa. “Não sairemos daqui com uma resposta pronta pois essa questão é muito complexa, mas certamente esse encontro fortalecerá esse debate no sentido de discutirmos o que podemos fazer sobre esse assunto”, destacou Takamoto.

Objetivos – Quarto diretor vice-presidente da Enkyo, Eiki Shimabukuro esclareceu os objetivos do Fórum: “apresentar as quatro entidades assistenciais, de origem nikkei, e também discutir o futuro dessas entidades”. Segundo ele, as quatro instituições foram fundadas por pessoas “idealistas, visionárias e benevolentes que queriam construir um mundo melhor para a sociedade”.
Moradia e autonomia – Antes das apresentações de cada entidade, o médico Marcel Hiratsuka falou sobre o tema “Moradia e autonomia: base para uma longevidade saudável”. Ele iniciou sua palestra com duas perguntas para o público: “Você consegue ser você mesmo dentro de sua própria casa?” e “Você consegue fazer o que valoriza no lugar em sua moradia?”. E explicou que “moradia não é apenas ‘onde a pessoa fica'”. “A moradia é algo muito maior do que apenas ficar naquele local, em ponto geográfico. A moradia também é um palco de intervenção e cuidado”, disse, acrescentando que a convivência na moradia pode gerar vínculos, que podem ser positivos ou negativos, e que a moradia é um local que também gera propósitos, “como o de estar vivo e o propósito de se levantar no dia a dia”. E aproveitou para esclarecer que “autonomia é diferente de independência”.

O médico lembrou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) determinou o período de 2020 a 2030 como a Década do Envelhecimento Saudável e que envelhecimento saudável pode ser definido como “o processo de desenvolver e manter a capacidade funcional que possibilita o bem-estar na idade avançada”.
Para ele, para envelhecermos bem, é fundamental saber se necessidades básicas, como moradia, saneamento, acesso à saúde e ao transporte, além de alimentação, estão sendo supridas na terceira idade.
O médico falou ainda sobre a solidão como um dos principais fatores que pioram a saúde da pessoa idosa. “Lembrando que solidão é diferente de morar sozinho ou de morar com outras pessoas. Solidão é um sentimento de isolamento, de falta de acesso com outras pessoas”, disse, afirmando que a solidão pode facilitar riscos para o surgimento de doenças. Segundo ele, o risco da solidão à saúde é comparável ao da obesidade e ao de fumar 15 cigarros por dia. “Dentro da sua casa, dentro do seu bairro, dentro da sua comunidade, dentro da casa da instituição de longa permanência, temos que promover a interação”, explicou.
Kibô – Presidente da Kibô-no-iê, entidade fundada por Koko Ichikawa – imigrante japonesa que chegou ao país em 1958 – Dirce Shimomoto abordou o trabalho social e a saúde financeira da entidade. “Ela começou sozinha, trabalhando, conseguiu fazer o que estava ao alcance, sem gestão, mas com muito amor”, disse, explicando que, não à toa, o lema da sua gestão é “trabalho com amor”.

“Foi esse o legado que ela deixou”, destacou Dirce, explicando que, em 2015, a Kibô-no-iê iniciou uma grande mudança em seu modelo assistencial, focando seu atendimento na autonomia. “Antes, os residentes eram totalmente dependentes, ou seja, recebiam cuidados completos, o que dificultava sua adaptação em ambientes familiares. Hoje nós trabalhamos muito focados em atividades que estimulam habilidades, a parte cognitiva”, disse, acrescentando que um dos mais recentes é o ateliê de cerâmica montado pela ceramista Hideko Honma. Além disso, a instituição oferece musicoterapia, atividades físicas e oficinas terapêuticas, como pintura e criação de produtos. Outro projeto implementado foi a oficina de fraldas, visando reduzir os custos com esse item essencial.
Segundo Dirce, a Kibô atende hoje 65 pessoas, sendo 36 mulheres e 29 homens, com idade média de 58 anos. Desses, 27 residentes têm mobilidade reduzida. Entre as principais receitas, os eventos são responsáveis pela maior fatia da arrecadação, com 33%, seguida pela contribuição dos familiares (20%), nota fiscal paulista (17%) e bazares (11%). Para sobreviver, a instituição também conta com contribuições de entidades parceiras e de emendas parlamentares.
Para o futuro, a ideia é construir um centro de convivência com capacidade para atender cerca de 500 deficientes intelectuais e idosos. Os desafios, conta Dirce, são a regularização do terreno para aprovação e o financiamento do projeto.
Kodomo – Ex-presidente da Kodomo no Sono, Sergio Oda contou a história da entidade, cuja semente foi plantada pelo monge Ryoshin Hasegawa, que veio para o Brasil no início da década de 1950 para difundir a seita budista Jodo-Shu, fundando, em 1955, o Templo Nippakuji, no bairro de Pirituba, zona Leste de São Paulo.
Em 1957, fundou a escola Nippakuji Gakuen, no mesmo local. Em 1958, acolheu as 15 primeiras crianças com dificuldades intelectuais para serem treinadas e educadas e fundou uma associação para cuidar delas de forma oficial. Em 1959, as atividades foram transferidas para Itaquera, em um sítio doado por Kichisaburo Iguchi, que recebeu o nome de Jardim de Repouso ou Kodomo no Sono.

Segundo ele, a Kodomo no Sono foi imaginada como uma instituição que oferecesse educação e treinamento para que as crianças acolhidas pudessem ser preparadas para participar da vida cotidiana no convívio com seus familiares.
A entidade assiste atualmente 70 pessoas, entre homens e mulheres, na faixa etária de 25 a 74 anos, que recebem orientações psicológicas, pedagógicas e vivenciais, bem como acompanhamento nutricional e fonoaudiológico, além de dedicarem-se às atividades terapêuticas e produtivas.
A principal fonte de arrecadação de recursos é o Festival Kodomo no Sono. Ao longo do ano, a entidade promove ainda outros eventos como o Chá Beneficente, Show Beneficente, Ramen no Hi, Costelão e Karaokê.
Ikoi – Presidente do Ikoi no Sono, Izumu Honda lembrou que, neste domingo (24 de maio), a entidade completa 68 anos cuidando de idosos fragilizados e semi-fragilizados em sua sede, em Guarulhos (SP). O Ikoi oferece diversos serviços de saúde e bem-estar (fisioterapia, psicologia, etc.) sem custo adicional, pois é uma entidade beneficente. Os custos são cobertos por doações e contribuições.

Durante a pandemia, a instituição observou que muitas famílias que abrigavam pessoas assistidas se adaptaram à convivência, e os assistidos também. Com isso, muitos não retornaram à instituição após o fim da pandemia, pois as famílias decidiram mantê-los e eles próprios preferiram ficar. A instituição pretende focar em atender pessoas cujas condições são precárias.
Lembrou que o Ikoi tem a capacidade máxima de atender a 0,14% da população nikkei em São Paulo; 0,03% da população nikkei do estado de SP e 0,02% da população nikkei do país. A capacidade máxima atual é de 70 pessoas.
Como proposta para um envelhecimento com qualidade, Izumu apresentou o projeto Mirai, que utiliza a experiência acumulada pelo Ikoi ao longo de quase sete décadas. A ideia central é “transformar o envelhecimento em um processo ativo, digno, alegre e planejado, adaptando as práticas do Ikoi no Sono às diversas fases do envelhecimento e as necessidades para um novo perfil de usuário e sua família, com preservação dos laços familiares, além de um público mais amplo”.
Para o futuro, os projetos preveem a implementação do Residencial Sênior Nikkey Palace em parceria com o Nikkey Palace Hotel, e o Centro Dia Rikkô (Creche para Idosos), na sede doada pela Rikkokai; além da ampliação da capacidade atual e a construção de chalés na sede do Ikoi, em Guarulhos.
Enkyo – Por fim, o secretário-geral da Enkyo, Marcelino Maezono, apresentou o Plano Diretor da Associação Nipo-Brasileira de Assistência Social para o Cumprimento da Missão e da Sustentabilidade da Assistência Social.

“Sem recursos financeiros, sem a sustentabilidade financeira, nada é possível. Então, nosso propósito é cumprir nossa missão, que é a missão maior de ajudar as pessoas em situação de vulnerabilidade, e sermos economicamente sustentável”, disse Marcelino, explicando que o Grupo Enkyo está dividido em duas estruturas: uma, que cuida da saúde – que é a Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo – e a outra, que cuida da assistência social, que é a Associação Nipo-Brasileira de São Paulo.
Segundo ele, isso ocorre por causa da filantropia. “Na saúde, temos a filantropia e na assistência social não. A diferença é que na saúde somos imunes aos impostos”, contou, explicando que “se tenho isenção, tenho que fazer uma contrapartida”. “Para isso temos os hospitais SUS em Itapetininga e em São Miguel Arcanjo”, disse Marcelino, que destacou algumas medidas tomadas para reduzir custos e aumentar receitas.
(Aldo Shiguti)
PARA SABER MAIS:
Sociedade Beneficente Casa da Esperança Kibô-no-iê: https://kibonoie.org.br/
Associação Pró-Excepcionais Kodomo no Sono: https://kodomonosono.org.br/
Assistência Social Dom José Gaspar Ikoi no Sono: https://www.ikoinosono.org.br
Enkyo – Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo: https://enkyo.org.br/assistencia-social/






