
Com o resultado nas urnas referendando Lula como o próximo presidente do Brasil, a comunidade nipo-brasileira, a exemplo da população geral, também sentiu que a polarização deu o tom nas eleições. Direita e esquerda não mediram esforços para justificarem a escolha entre um ou outro candidato, com direito a cartas abertas e manifestos.
De todos os documentos públicos, a “Carta Aberta de Nipo-Brasileiros e Nipo-Brasileiras” foi a que teve maior alcance e engajamento, com exposição na grande imprensa. No total, foram 3.752 pessoas que aderiram, com 634 signatários coautores. Em síntese, os nikkeis defendem a recuperação da “esperança, herança ancestral que animou nossos antecessores nos momentos mais difíceis de suas vidas”, discordando do atual presidente, que “não honra a democracia brasileira, comprometendo o presente e o futuro da nação”.

“POR DÉCADAS HOMENS CIS HÉTEROS CONSERVADORES FALARAM SOZINHOS EM NOME E POR TODA A ‘COLÔNIA JAPONESA’. NÓS, NIPO-BRASILEIROS ‘DESGARRADOS’, OU SEJA, QUE NÃO ORBITAMOS EM TORNO DE ASSOCIAÇÕES DOS IMIGRANTES JAPONESES, NOS MANTIVEMOS CALADOS, SILENCIOSOS. ISSO DUROU ATÉ O PRIMEIRO TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS”
ALEXANDRE KISHIMOTO – ANTROPÓLOGO
Um dos coautores da carta, o antropólogo Alexandre Kishimoto comemorou a eleição de Lula e do sucesso do movimento. “Há um estereótipo racial segundo o qual todos os nipo-brasileiros seriam conservadores politicamente, portanto, eleitores de Bolsonaro. Por décadas homens cis héteros conservadores falaram sozinhos em nome e por toda a ‘colônia japonesa’. Nós, nipo-brasileiros ‘desgarrados’, ou seja, que não orbitamos em torno de associações dos imigrantes japoneses, nos mantivemos calados, silenciosos. Isso durou até o primeiro turno das eleições presidenciais. Resolvemos sair do silêncio e dizer: ‘Não em nosso nome’! Mas nós, nipo-brasileiros que sonhamos com uma sociedade mais inclusiva, que respeite a todes independente de religião, gênero, orientação e identidade sexual ou posição política, nós que ansiamos que o povo todo viva como direitos o que vivemos como privilégios, nós somos a maioria. Uma maioria silenciosa até agora”, destacou o nikkei.

