“Nunca tinha passado pela minha cabeça conseguir trabalhos como atriz no Japão, porque era muito difícil ver estrangeiros nas telas e quando apareciam, eram mestiços, diferente de mim que não tenho nenhuma ascendência japonesa”, explica Fadile, que até então só teve oportunidade de atuar em comerciais e peças publicitárias como figurante.
Ela conta que na sua infância não conseguia se aceitar, e nas fotos da época, ela aparece de franja e cabelo alisado, na tentativa de se aproximar o máximo possível das características socialmente consideradas como “japonesas”.
Até pensava: ‘meu Deus, por que você não me fez japonesa, ou pelo menos haafu (mestiça)?’


“Mas agora que estou para fazer 24 anos [no momento da entrevista], morando sozinha há 4 anos em Tóquio, eu gosto muito de ser estrangeira. Apesar de o tratamento ser diferente, eu consigo ver isso como positivo. Por causa disso, eu consegui participar de um filme representando o meu país”, comenta Fadile com orgulho.
Mesmo apresentando conflitos internos sobre a própria identidade, Fadile conta que teve a sorte de não ter sofrido bullying. Em contrapartida, com o colega Lucas foi diferente, infelizmente.
Sobre o seu processo de adaptação na escola japonesa, o jovem descreveu com apenas uma palavra: “sofri”. Lucas comenta que, assim como já revelou em outras entrevistas, durante os 12 anos da sua vida escolar sempre foi vítima de bullying ou discriminação. No quinto ano, Lucas criou paixão pelo beisebol, mas até no esporte teve que lidar com pessoas que impediam de ele jogar e escondiam seus pertences, além de apelidos pejorativos. “Já me chamaram de macaco”. Superando tudo isso, hoje Lucas comenta com leveza, “coisas pequenas, mas aconteciam”.
No primeiro ano do chuugakkou (sétimo ano do ensino brasileiro), descobriu que tinha diabete tipo 1, conhecido como diabete infantil. Como parte do tratamento, precisava tomar injeção na sala de aula, o que acabou causando estranhamento aos colegas de sala e tornando mais um motivo para bullying.
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