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Poeta japonês que viveu drama da guerra relembra época em que era ‘lavador de cadáveres’ em Okinawa

Cantora Kaori Futenma com o poeta Yoshiaki Hirayama, de 87 anos: um corpo limpo, rendia um dólar

Há muitas lendas sobre o Japão pós-guerra. Uma dessas remete diretamente à província de Okinawa, no sul do arquipélago, e retrata uma profissão bastante peculiar e até comum: limpar e lavar corpos de soldados americanos vítimas do conflito. Tudo para ter recursos financeiros e sobreviver, em uma época de extrema escassez econômica.

Em um programa especial sobre os 50 anos de retorno de Okinawa para o Japão, da emissora de rádio Tokyo FM, o assunto veio à tona através de um bate-papo da cantora Kaori Futenma com o poeta Yoshiaki Hirayama, de 87 anos. Ao comentarem fatos marcantes, ele relembrou seu período de vida em Okinawa, depois da guerra.

Segundo Hirayama, “durante a Guerra da Coreia [1950-1953], eu trabalhava como ‘lavador de mortos’, cujos corpos seriam enviados para os Estados Unidos. A regra era simples; um corpo, um dólar. Um professor universitário (em referência a profissionais que atuavam nesse serviço) no começo de carreira ganhava 40 dólares, eu fazia de 55 a 60 dólares. Mas em outros lugares, como Amami Ôshima (ilha japonesa), que voltou antes de Okinawa para o Japão, faziam o dobro, 100 dólares ou 150 dólares. Já os filipinos faziam duas vezes mais do que eles. E os negros faziam 2 vezes o deles, com 350 a 400 dólares. E os brancos faziam o dobro deles. A gente de Okinawa era o mais baixo (referindo-se a salários)”.

Hirayama viu o fim da guerra com 11 anos. Quando era universitário, em uma apresentação de sua poesia, mesmo falando ao microfone, a sua voz era abafada pelos caças americanos que passavam na ilha.

No bate-papo entre os dois, a cantora também relembrou passagens marcantes da vida, quando ouviu da sua avó que “para ir para o Japão, a gente precisava de passaporte”, “A moeda de troca era dólar”, “E você dirigia na faixa da direita”. Era a época da dominação americana no território okinawano.

Quando Kaori Futenma foi para Tóquio, ela explia que “me senti, pela primeira vez, japonesa quando cantei o hino do Japão”. Mas quando se lembra dessa época, ela faz um paradoxo: “Em Okinawa a gente fala sobre os nossos avós que já se foram, mas as pessoas do Japão só falam sobre a beleza da ilha”.

Já para o poeta, “Okinawa é uma ilha que mesmo sendo dominada, o sol da sua alma não é comprado”. “É como se fosse um rabo de lagartixa cortado, a história de Okinawa é dolorida”, refletiu diz o poeta sobre a separação da ilha com o Japão.

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